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13 de dez de 2011

As dicas de etiqueta de Gloria Kalil


Ser chique é marca registrada de Gloria Kalil. Não é frase de efeito, ela está regulamentando o uso por terceiros da marca Chic, lançada nos anos 90 com seus guias de estilo Chic e Chic Homem (Editora Senac), que venderam cerca de 200 mil exemplares. Tudo indica que repetirá a façanha com o novo Chic[érrimo], em que define as normas de convívio deste início de século.
Segurança para isso não lhe falta. Sofisticada sem ser esnobe, Gloria, 58 anos, fala cinco línguas (português, francês, inglês, italiano e alemão, que aprendeu na infância com uma preceptora de origem germânica). Profissionalmente, fez um pouco de tudo na área de moda e estilo: foi repórter de CLAUDIA; trabalhou com tecelagem e fiação na empresa da família do ex-marido; e representou a badaladíssima marca italiana Fiorucci, chegando a ter uma rede de lojas por todo o país. Com o fim do negócio, se transformou em consultora.
Discreta em relação à vida pessoal, Gloria conta apenas que tem um namorado de longa data. "Pode dizer que estou muito bem acompanhada", brinca. No loft moderno, onde mora sozinha, apareceu para a entrevista com jeans branco, blusa preta e jóias de prata. Serviu café com brioches e falou por mais de duas horas sobre um tema que domina: a arte de viver e conviver bem.
CLAUDIA - A moda já lhe rendeu dois best-sellers. Por que você resolveu falar de etiqueta?
Gloria Kalil - A preocupação com a aparência tomou uma proporção exagerada. Agora estou dizendo aos leitores: "Chega de imagem, cuidem da sua segurança interna". Além disso, percebi que atrás de cada pergunta de moda há sempre uma questão maior: "Que ritual é esse para o qual eu não sei como me vestir?" Muito da insegurança vem da falta de informação e de convívio social. Hoje, a família nem se reúne mais em volta da mesa de jantar. Todo mundo corre demais, cada um tem um horário, esquenta o prato no microondas, come em frente da TV...
CLAUDIA - As crianças não têm com quem aprender?
Gloria - Não, porque era durante as refeições que os pais ensinavam o básico do comportamento e da ética. Naqueles momentos, diziam: "Senta direito, olha o cotovelo na mesa". Ou então: "Seu amigo dedurou um colega para o professor? Isso não se faz, é muito feio". O mundo mudou, a transmissão informal de conhecimento diminuiu e hoje reina a falsa impressão de que não existe regra alguma. Bobagem. Os códigos precisam ser revistos, o que não significa que é possível prescindir deles.
CLAUDIA - A ideia de obedecer regulamentos assusta. Qual o motivo de tanta resistência?
Gloria - Isso acontece porque somos filhos e netos dos anos 60, a década que rompeu com valores machistas, preconceituosos. Porém, o fato de termos lutado contra o autoritarismo e a hipocrisia não quer dizer que agora vale tudo! Sem educação não há civilização. O problema é que as famílias modernas sentem-se desconfortáveis, pensando que educação é repressão... e é mesmo. O papel dos filhos é reclamar e achar os pais uns chatos. E o papel dos pais é serem chatos, ora! Cabe a eles repetir mil vezes, até que a criança aprenda, que não pode comer de boca aberta nem falar alto nem devorar toda a batata frita. Tem que dividir com os outros. Senão, quem chega na frente come a melhor parte - esse é o princípio da barbárie. Eu não tive filhos, mas certamente seria uma mãe insuportável... (Risos)
CLAUDIA - Qual é a principal regra da etiqueta moderna?
Gloria - Prestar atenção no outro. Quem só olha para o próprio umbigo não está apto a conviver. E atualmente isso é muito comum, o narcisismo virou um problema social.
CLAUDIA - Acaba interferindo também nos relacionamentos amorosos...
Gloria - O drama é que uma tribo não faz concessão a outra e aí os relacionamentos ficam difíceis. Está cheio de mulher que olha o cara e, se não gosta do sapato dele, não se dispõe a conhecê-lo... Para escrever o capítulo sobre casais, encomendei uma enquete à equipe do meu site. No resultado, ficou evidente um problema de código: mulher adora moda e homem tem horror ao estilo fashion. Isso gera curto-circuito na comunicação. Teve um cara que reclamou. Deu um vestido de presente para a namorada e ela estreou a peça com botinas e uma jaqueta de jeans rasgada. Ele considerou um ultraje.
CLAUDIA - O que aconselha para evitar desencontros desse tipo?
Gloria - Que a mulher não fique presa ao seu mundo. Se quer agradar a um homem, no mínimo precisa fazer um pouco de esforço para entender o universo dele e se comunicar.
CLAUDIA - Podemos tomar a iniciativa da conquista?
Gloria - Não! Muitas mulheres ficam chocadas quando digo isso, acham que é coisa do século passado. Mas eu insisto: está interessada nele? Então não o procure. Esse não é o momento de mostrar o quanto você é independente, e sim de observar o funcionamento dos códigos de sedução. O fato é que o homem continua gostando de conquistar e a mulher de ser conquistada. Se ela correr atrás dele, ele correrá dela.
CLAUDIA - Duas saias-justas: o fim do namoro e o reencontro com o ex. Como lidar com elas?
Gloria - Qual é a melhor hora para quebrar a perna ou levar um fora? Isso é da vida, não há livro que resolva. Se for abandonada, não vá perseguir o sujeito nem encha a paciência dos outros contando mil vezes a sua história - melhor amargar sozinha. Separação é como gripe: tem um ciclo, dói, depois passa. Caso dê de cara com o ex e a nova namorada no restaurante, nada de fazer cena.
CLAUDIA - Hoje é comum uma mulher perguntar a outra se aplicou Botox, fez plástica... É de bom-tom?
Gloria - É péssimo! A plástica, sobretudo, devia ser abordada com o mesmo pudor dos assuntos ginecológicos. É íntimo demais, ninguém tem de ficar bisbilhotando. Claro que amigas trocam segredos e podem até ir juntas aplicar Botox... Mas como você se sentiria se uma conhecida qualquer perguntasse o preço do seu sapato, por que você engordou ou se fez preenchimento de rugas? Em geral, pessoas invasivas adoram falar dos seus tratamentos, mostrar o silicone. Aí, é o problema contrário, você fica naquela situação horrível: "Não, querida, eu não quero ver o seu peito..."
CLAUDIA - Num almoço, tudo bem se você atender o celular?
Gloria - Se estiver aguardando uma ligação urgente, melhor se desculpar com seu acompanhante, ser breve na conversa e desligar o aparelho assim que resolver a pendência. Outro dia, vi duas moças num restaurante - uma almoçou enquanto a outra ficou no celular o tempo todo. É o fim da picada, eu teria me levantado da mesa.
CLAUDIA - Como os fumantes devem se comportar para não perturbar nem ser perturbados pelos outros?
Gloria - A não ser que você more em Paris - onde todo mundo fuma em qualquer lugar e ninguém dá a mínima -, tem que pedir licença e perguntar se incomoda. E agir de acordo com a resposta, claro. Por outro lado, quando é você a anfitriã fóbica e recebe um amigo fumante, é possível, delicadamente, sugerir que ele acenda o cigarro na varanda. Mas, se for um convidado de muita cerimônia, desista. Abra as janelas e pronto.
CLAUDIA - Existem normas que ajudem a mulher a ficar segura em situações variadas?
Gloria - Sim, e também proibições (veja o quadro). Mas etiqueta não é um exercício de memória, não se trata de decorar regras, e sim de entender o espírito da coisa. A idéia é facilitar a vida e as relações, nada a ver com complicar ou esnobar.
CLAUDIA - Eventos especiais sempre trazem dúvidas. Qual o segredo para fazer bonito na festa?
Gloria - O fundamental é identificar o tipo de rito, o que é valorizado naquela situação. Suponha que o convite peça traje social completo e você decida ir de jeans. Se está convencida disso, tudo bem. Porém, se vestiu a roupa errada porque não entendeu o convite ou não prestou muita atenção nele, vai se sentir a última das criaturas e acabar perdendo a noite. A segurança aumenta à medida que você vai dominando as normas. Até para desobedecê-las, se preferir.
CLAUDIA - O que uma mulher precisa saber para receber bem?
Gloria - Que o bem-estar dos convidados é mais importante do que ter o copo certo. Também é bom lembrar que não se convida desafetos nem um casal recém-separado para uma recepção íntima (em festa grande pode, mas sempre é melhor avisá-los antes). A partir daí, existem mil possibilidades. É besteira se estressar porque quer fazer um fondue para um pequeno grupo de amigos e não tem o aparelho. Peça emprestado a uma amiga ou alugue. Aliás, outro amigo pode trazer aquele queijo ótimo, você serve as bebidas, a conversa engata e dá tudo certo. Não se esqueça de colocar flores na casa e vestir uma roupa bonita: é carinhoso demonstrar que se preparou para receber as pessoas. A situação muda em um jantar para 20 convidados. Nesse caso, é melhor contratar uma copeira ou um bufê com serviço completo do que ficar correndo de lá pra cá, mostrando que está tendo o maior trabalho. Aí você nem aproveita a festa nem atende seus convidados direito.
CLAUDIA - O problema é querer dar o passo maior que a perna?
Gloria - Não funciona alguém tentar aparentar o que não é - isso é pura exterioridade, enquanto a segurança é uma condição interna. Mas que ninguém se engane: a segurança depende de a gente se sentir aceita pelos nossos pares, as pessoas que valorizamos, sejam elas supertradicionais e cheias de cerimônia ou artistas informais. Você pode ser indiferente à opinião de um determinado grupo porque a sua turma é outra. Mas, se você se sente a tal em detrimento de todo mundo, não é segura coisa nenhuma, é louca. Nós precisamos da aprovação do outro e vice-versa, daí a necessidade de prestar atenção no ambiente, nas pessoas, roupas, conversas. Tudo ajuda você a entender melhor a situação e a ficar mais à vontade.
Ela diz que não pode!
No Trabalho
- Transformar sua mesa em um altar pessoal (fotos de família, latinhas coloridas, bichinhos).
- Cara feia.
- Abusar do uso de roupas em tons pastel: infantilizam e dão ar de fragilidade.
No Restaurante
- Tentar furar a fila de espera.
- Tirar os sapatos debaixo da mesa.
- Utilizar as seguintes palavras e expressões que começam com d: dieta, doença, depressão, dureza, diretrizes políticas, doutrinas religiosas.
No Casamento
Se você for madrinha ou convidada:
- Usar preto no altar.
- Competir com a noiva (vestido de cauda, decote até o umbigo etc.).
Se Você for Noiva:
- Fazer do seu noivo uma peça de decoração (o terno combinando com seu buquê, por exemplo).
No Relacionamento
- Falar mal do ex.
- Comentar numa roda idiossincrasias (roncos, hábito de ler no banheiro...).
- Desmentir o parceiro em público.
- Fazer voz de criança.

Por Déborah de Paula Souza 
claudia.abril